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Um relatório sobre "Problemas do Álcool na Família" que a União Europeia acaba de tornar público e a que o Correio da Manhã teve acesso traça um cenário desolador face à dimensão do fenómeno, que afecta 84 milhões de pessoas, e à escassez das respostas. Sobre Portugal, em segundo lugar na lista dos países mais consumidores, as referências não são nada elogiosas, já que, mesmo a nível governamental, reina "uma forte política da avestruz".

O documento – elaborado para a União Europeia pela COFACE, organização europeia de famílias, e a Eurocare, conjunto de associações que lutam contra o abuso de álcool – foi apresentado anteontem pelo comissário dos Assuntos Sociais, Pádraig Flynn, que o fez seguir para os Estados-membros, com uma advertência: ‘Espero sinceramente que as recomendações sejam levadas em conta com seriedade que elas merecem’.

É que, indica o trabalho científico, "há uma grande variedade de serviços e abordagens sobre os problemas do álcool, mas num elevado número de países da União Europeia as estruturas de apoio ás famílias são escassas", ou seja, enquanto se regista unanimidade em banir o consumo de bebidas das estradas "nenhum programa existe a alertar para os perigos de ser pai sob o efeito do álcool".

O estudo recorre ás drogas ilícitas para lamentar que o álcool não mereça o mesmo tratamento por parte das autoridades, com direito a campanhas de prevenção do consumo. "Quando os problemas ocorrem com drogas ilegais, a tendência é para culpar as drogas. Quando os problemas ocorrem com o álcool, a tendência é para culpar os bebedores", o que desvia a atenção dos factores sociais e económicos que estimulam o consumo de álcool.

Se estas questões são de algum modo generalizadas no espaço europeu, o caso português parece mais complexo: "Podemos resumir a situação do álcool na família em Portugal em poucas palavras-chave: indiferença, ignorância, vergonha em denunciar".

Nas organizações governamentais e não governamentais que contactámos para este projecto observámos uma forte política da avestruz. Alguns não reconhecem que há problemas; a maioria nem sequer está alerta para a terrível extensão dos problemas que sofre’.

Limitar bebidas para os jovens

Crianças vítimas de abuso ou negligência, mulheres espancadas e maltratadas, elevado número de viúvas e órfãos de homens que morrem de cirrose e deficientes resultantes de acidentes com condutores embriagados. Este é o cenário traçado sobre Portugal mas trata-se "apenas da ponta do iceberg". Daí que a Europa se interrogue: "Com a extensão conhecida dos problemas familiares, como é que tão poucos projectos de pesquisa estão a ser desenvolvidos nesta área?"

Entre as linhas de acção propostas para o país está a realização de um programa nacional de informação a alertar para os riscos do abuso de álcool junto da famílias, das grávidas, das crianças, dos adolescentes e dos próprios alcoólicos, procurando envolver os meios de comunicação social para haver mais impacte.

Essa campanha deverá ser complementada com a distribuição de panfletos e com a pesquisa científica sobre os problemas do álcool na família e terá ainda que ser enquadrada numa política que inclua medidas legislativas, como ‘aumentar a idade mínima de entrada dos jovens nos bares para consumirem bebidas alcoólicas’, com a respectiva punição dos donos dos estabelecimentos e dos funcionários que não cumpram essa limitação.

Outra medida legal proposta é a regulamentação dos "alcopops" (refrigerantes com álcool), com a melhoria de aspectos relacionados com a rotulagem e a comercialização, indicando claramente que se tratam de bebidas alcoólicas. A proibição da venda de álcool em bares de escolas ou em cafetarias para crianças ou adolescentes é também sugerida.

João Monteiro
Correio da Manhã de 19/12/98


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