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Afecta cerca de 1,7 milhões de portugueses. É a maior forma de toxicodependência conhecida no nosso país. O alcoolismo é uma das principais causas de dramas pessoais e familiares, considera Silva Marques, especialista do Hospital Sobral Cid, em Coimbra.

O alcoolismo é a primeira forma de toxicodependência em Portugal. Toda a gente fala dos heroino-dependentes, mas esquecem o problema do álcool no nosso país que é a primeira forma de toxicodependência da lista’, esclarece Silva Marques.

De acordo com as estatísticas, existem em Portugal cerca de 1,7 milhões de pessoas afectadas em algum grau pelo alcoolismo. ‘Estes valores representam um número muito grande de doentes quer de alcoólicos crónicos, quer de bebedores excessivos, nomeadamente muito maior de que o da heroína’, contrapõe.

O alcoolismo é uma doença difícil de definir e de diagnosticar nas suas fases iniciais. Quando uma pessoa acorda de manhã e sente que precisa de beber já é, provavelmente, doente. Os sintomas de privação mais importantes são os tremores, as náuseas e os vómitos, o mal estar e uma enorme ansiedade que só alivia quando se bebe.

Segundo Silva Marques ‘existem indivíduos que bebem bebidas alcoólicas, qualquer que seja o tipo, mas que bebem regularmente essas bebidas e depois há o que bebem esporadicamente. Podemos falar de alcoolismo quando em qualquer uma destas situações surgem consequências, tanto individuais, como sociais e familiares’.

O especialista recorda que a ingestão continuada de mais de 20 gramas de álcool – equivale a 2 copos de vinhos de 10 graus – por dia pode ter consequências hepáticas, gástricas e cerebrais. No homem há disfunções, nomeadamente disfunções erécteis, em cerca de 60 por cento dos doentes. Na mulher também existem sequelas, como a diminuição do líbido e do prazer sexual.

Contudo, as consequências mais graves ocorrem a outros níveis, social, emocional e psiquiátrico. ‘Quando os efeitos do alcoolismo extravasam para o meio familiar e social, gera-se o conflito e a agressividade.’

Um estudo efectuado há uns anos num estabelecimento prisional, revelou que cerca de 30 a 35 por cento dos indivíduos que estavam presos naquela instituição haviam sido condenados por crimes relacionados directa ou indirectamente com o álcool, facto ‘que revela bem as consequências sociais do alcoolismo’. ‘Uma grande parte dos acidentes de trabalho também estão relacionados com o alcoolismo isto para não falar dos acidentes rodoviários, cuja lista Portugal lidera a nível europeu e mundial.’

Relativamente ao tratamento, a ciência tem evoluído, nomeadamente com a Introdução no tratamento desta doença dos antagonistas dos receptores opiáceos, mas ainda não existe uma cura definitiva. ‘Um alcoólico é e será sempre um alcoólico’, afirma Silva Marques, explicando que a ‘doença não desaparece, não há cura. A medicina apenas fornece formas de controlar a doença.’

Açores têm treze mil

Cerca de treze mil açorianos são dependentes de bebidas alcoólicas, a maioria dos quais na faixa etária entre os 30 e 45 anos, segundo os resultados de u estudo nacional sobre o alcoolismo, baseado numa sondagem efectuada a 175 indivíduos de todas as ilhas do arquipélago entre 1996 e 97.

O mesmo inquérito apontou como escalão etário de maiores bebedores os jovens entre os 20 e 30 anos, verificando-se, no entanto, um aumento da incidência do alcoolismo entre os que tem 15 e 20 anos.

Segundo o responsável pela clínica de São João de Deus, Aires Gameiro, a grande ingestão de cervejas por parte dos jovens tem que ver com ‘as aguerridas publicidades e patrocínios das cervejeiras a festas de estudantes, enquanto os mais velhos bebem sobretudo vinho e bebidas não destiladas’.

Sustentou, no entanto, que ‘os números não são realistas, dado o reduzido universo dos inquiridos’, estimando que em 500 audições possam ser identificados até 20 mil dependentes e bebedores excessivos.

In Correio da Manhã de 27/10/98


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