O alcoólico pode contrair
problemas circulatórios e apresentar feridas por
todo o corpo. Nessa altura, ele está bem
familiarizado com os hospitais. Indubitavelmente, já
teve a experiência de entrar em colapso e ser levado
a um pronto-socorro, onde o trataram como melhor
puderam.
Os médicos acham que tratar de
tais pessoas é uma tarefa ingrata. Abusaram dos
corpos de modo tão terrível que agora estes não
respondem bem ao tratamento. E, ao recebe rem alta,
invariavelmente voltam à garrafa e continuam o
processo de autodestruição.
Ainda mais perturbador que a
ruína física do alcoólico, é o modo como sua mente
se deteriora sob o abuso contínuo do álcool. Todos
os que lidam com este problema vêem o efeito do
álcool até mesmo em ex-bancários, advogados, agentes
e executivos.
A mente e a personalidade de
um ex-médico, que finalmente morreu numa instituição
estadual, estavam tão afectadas por seus encontros
contínuos com a bebida, que ele não conseguia viver
fora da instituição. Esse homem, que já fora útil à
sociedade e altamente respeitado e amado em sua
comunidade, não podia nem mesmo ser usado como
enfermeiro na instituição em que passou seus últimos
anos de vida. Porquê? Por causa da deterioração
mental.
A possibilidade de descer ao
fundo assusta qualquer indivíduo do terceiro estágio
em diante, e também muitos dos bebedores sociais e
habituais, que ainda não beberam o tempo suficiente
para se viciarem. Felizmente, o indivíduo não tem
de chegar ao ponto da deterioração orgânica para
se libertar da escravidão da bebida. Em qualquer
ponto da descida ele pode enfrentar-se a si mesmo e
à sua situação, e lançar fora as algemas do vício.
Quanto mais cedo o indivíduo
chegar a essa compreensão e procurar ajuda, tanto
menos domínio o álcool terá sobre ele, e tanto mais
fácil será libertar-se. Não é impossível a pessoa
libertar-se no estágio final do alcoolismo, pois
nada é impossível para Deus. Mas os seus problemas
serão muito mais graves do que, se houvesse
procurado ajuda mais cedo.
Por exemplo, certo professor
de música de um grande ginásio, quando nos veio
procurar, havia sido alcoólico por um ano e meio.
Trabalhar com ele foi muito diferente do que com os
alcoólicos que já vão para dez ou quinze anos, pois
ele reagia ao tratamento e às sugestões com muito
maior rapidez.
Infelizmente, nada podemos
fazer pelo alcoólico até que ele deseje receber
ajuda. Podemos reconhecer todos os sintomas e saber
do que o indivíduo precisa, mas não conseguimos
chegar até ele a não ser que ele decida receber
auxílio. Já cheguei ao ponto de recusar conversar
com a pessoa que não deseja minha ajuda.
Um pastor veio ver-me certa
ocasião e instou comigo a que visitasse certa
família na qual o marido era alcoólico. Tentei
explicar que minha visita seria infrutífera, a não
ser que o homem desejasse receber ajuda. Mas, quando
a esposa me implorou que o fosse ver, concordei.
Gastei metade da manhã
tentando conhecê-lo e desenvolver certo
entendimento, porque queria que ele confiasse em
mim. Quando, finalmente, ele começou a abrir-se e
nos encontrava-mos numa conversa bastante amigável
acerca do seu problema e do facto de haver uma
solução, a esposa entrou na sala, irritou-se com
algo que o marido disse e começou a destratá-lo em
minha presença. Isso acabou com minhas esperanças de
alcançá-lo. Foi uma situação miserável e embaraçosa,
e logo me despedi deles.
Nesse caso o homem não estava
pronto para a ajuda e nem a desejava, de modo que
não me procurou. Assim, quando fui procurá-lo em
casa, não tínhamos a privacidade devida. Além do
mais, não tive a oportunidade de conversar com a
esposa; eu não sabia o que esperar dela.
Consequentemente, quando ela repreendeu o marido
nada pude fazer. É claro, percebi que ela
provavelmente havia atingido o ponto de não mais
poder se conter. Toda a sua humilhação, seu pesar
passado e seu temor presente, finalmente explodiram.
Entretanto, tenho certeza de que minha visita foi um
empecilho, e não a ajuda que havíamos esperado.
O alcoólico deve atingir um
ponto de crise na vida antes que esteja aberto à
direcção e ajuda. Na linguagem popular, ele tem de
chegar ao fundo do poço. O fundo do poço pode ser
diferente para cada pessoa.
Certo advogado, bastante
conhecido, estava na fase pré-alcoólica quando
atingiu o fundo. Ele quando sóbrio era uma pessoa
que se vestia bem, sério, de boas maneiras, enfim, o
oposto de quando estava ébrio. Sua esposa tentou
dizer-lhe quão ridículo ele se tornava ao beber
demais, mas ele não acreditou nela. Assim, numa
festa, ela pediu que um amigo levasse uma câmara de
vídeo e o filmasse. Quando ele voltou à sobriedade,
mostraram-lhe o filme. Ele nunca mais tomou qualquer
gole.
Vários estudos demonstram que
somente cerca de 3 a 12 por cento dos viciados no
álcool vão viver na rua. A grande maioria vive em
suas comunidades, protegidos pela família e,
ocasionalmente, pelos companheiros de trabalho.
Com medo de encarar a vida,
ocultam-se em suas prisões de vergonha. Não têm para
onde ir. A maioria nem mesmo admite ter problemas. É
preciso que sejam sacudidos por algo que os faça
atingir o fundo e comecem a procurar respostas.
Às vezes o homem atinge o
fundo ao perder o emprego pela primeira vez e ver a
esposa, os filhos e a si mesmo sem um meio de
sustento. Pode ser que ele chegue ao fundo quando os
filhos reconhecem o problema e falam a respeito.
Certa mulher veio a meu
escritório, em desespero, depois de uma experiência
assim. Ela chegara a casa com uma caixa de cerveja.
Seu filho de doze anos de idade, caindo de joelhos,
agarrou-lhe as pernas e clamou: Oh, mãe, mãe, por
favor, não beba isso! Você não sabe o quanto a
bebida faz mal para a senhora!" As palavras do filho
levaram-na tão fundo que começou a procurar ajuda.
Outra mulher veio ver-me por
causa do marido.
"Já disse àquele homem
centenas de vezes que vou deixá-lo, se ele não parar
de beber".
"Já o deixou?" –
perguntei-lhe.
"Ainda não".
"Bem, deixe-o desta vez".
Quando o marido voltou para
casa e descobriu que ela havia ido embora, ficou
apavorado e percebeu que tinha de procurar ajuda.
Até àquele instante ele pensava que a mulher
estivera brincando. Ele jamais havia admitido ter um
problema com a bebida, mas agora sabia que tudo
quanto tinha na vida, e que valia a pena conservar,
desapareceria, a menos que encarasse o problema e
buscasse respostas. Consequentemente, ele começou a
procurar um modo de sair da sua dificuldade.