O Alcoolismo Feminino II
Marie Neenan era secretária com um cargo de
responsabilidade num escritório de advogados. Lidava
com processos confidenciais, memorandos importantes
e ocasionalmente, com importantes somas de dinheiro.
Os seus patrões nunca souberam que, nalgumas
ocasiões, ela trabalhava completamente às escuras,
incapaz de se lembrar posteriormente, daquilo que
tinha feito sob os efeitos do álcool.
Pat Frye parecia à primeira vista uma mãe como
outra qualquer, levando o seu bebé no carrinho até à
pastelaria da esquina, para ir almoçar com uma
amiga. O problema é que o "almoço" frequentemente
durava quatro horas e consistia em cerveja na sua
quase totalidade. No regresso, ela levava o carrinho
do bebé aos ziguezagues.
Estas mulheres são alcoólicas. Apesar de não
terem bebido nem uma gota na última década, elas têm
consciência de que são incontrolavelmente viciadas
no álcool - de que uma gota de qualquer coisa mais
forte que uma Coca Cola poder remetê-las de
imediato, de volta ao inferno do qual elas próprias
se libertaram.
Sempre existiram mulheres alcoólicas. Hoje em dia
a situação pode ter piorado; um estudo sugere que o
número de mulheres alcoólicas duplicou nos últimos
trinta anos. Ou muito simplesmente as mulheres já
não estão tão escondidas em casa como no passado -
como afirma a conselheira sobre alcoolismo Ruth
Maxwell (ex colaboradora do Centro de Smithers para
a Reabilitação de Alcoólicos no Hospital Roosevelt
em Nova Iorque e actualmente consultora para o
estabelecimento de programas de pré-tratamento junto
de empresas industriais e de comércio) agora que as
mulheres estão mais presentes no mundo do trabalho e
por isso são mais facilmente reconhecidas. De
qualquer forma, é agora um dado adquirido, que a
percentagem de mulheres com tendência para o
alcoolismo é semelhante à dos homens. Assim, dado
que uma mulher em cada dez, é alcoólica, isso
significa que mais de 200.000 mulheres em Portugal
já foram apanhadas nas malhas do alcoolismo,
incluindo, quem sabe, a si ou a sua melhor amiga. A
única forma de nos defendermos é compreender de que
se trata e como nos afecta.
COMO DISTINGUIR UMA ALCOÓLICA?
A maior parte das pessoas, quando ouve falar de
alcoolismo pensam em bairros degradados. O termo
"alcoólica" traz à mente imagens de velhas, sujas,
vestidas de farrapos, sentadas à porta de estações
de autocarros, rodeadas de sacos com os seus
escassos haveres.
Mas não é assim. Estas idosas já estão nos
últimos graus do alcoolismo e vício que pode durar
décadas até atingir esta total degradação. A
alcoólica comum é, na maior parte dos casos, uma
pessoa com uma vida activa. Para quem está de fora,
ela executa bem o seu trabalho, pode tomar uma
bebida num almoço ou um drinque numa festa, sem
ficar com "olhos piscos". Cuida da sua higiene,
arranja-se bem e assume responsabilidades como
qualquer outra mulher. Como a maioria dos viciados,
a maior parte do tempo ela parece mais normal que
você ou eu.
O que distingue uma alcoólica de nós, que também
bebemos, é que simplesmente enquanto que para nós
ficar "eufórico" é uma sensação que gostamos de
experimentar, para a alcoólica essa euforia torna-se
uma NECESSIDADE; ela sente que não aguenta a vida
sem essa "ajuda". Ela é uma compulsiva,
compelida a beber. Para ela, "só uma", é coisa que
não existe - logo à primeira bebida ela fica
enredada pelo vício.
Existem três estados distintos de alcoolismo. No
primeiro, a dependência passa despercebida. Beber é
divertido. Dá uma boa sensação - aumenta a sua
confiança, ajuda a esquecer as pequenas
contrariedades ou simplesmente alivia o estômago
tenso. Em resumo: faz o que faria qualquer outra
pessoa.
Mas pode haver um problema: se você é uma pessoa
que faz parte dos dez por cento dos seres humanos
com aversão biológica ao álcool, o seu problema é
impossível de detectar pela medicina e ainda só é
muito vagamente compreendido pelos médicos. Ainda
assim, você não pode tomar álcool sem despertar em
si um desejo muito forte de tomar mais. Uma vez
activado esse desejo, você está no segundo grau da
doença: a dependência. Como qualquer viciado, você
vai arranjar pretexto para tomar mais uma bebida.
Como qualquer viciado, vai necessitar de consumir
quantidades sempre crescentes para obter a mesma
sensação de "euforia" que deseja. Como qualquer
outro viciado, vai descobrir que se sente melhor
depois de ter bebido mas também que começa a
sentir-se bastante mal se não beber. O seu ser
começa a ficar inteiramente dedicado ao álcool.
As pessoas podem permanecer neste segundo grau
durante anos, ou mesmo décadas, sem que os outros se
apercebam do seu problema de alcoolismo. A sua
capacidade de aguentar o álcool pode aumentar de tal
maneira, que pode aparentar sobriedade depois de ter
bebido meia garrafa. Pode aprender maneiras de
disfarçar o seu vício, de tal forma que até mesmo os
amigos mais íntimos só vão pensar que "ela bebe um
pouco a mais que a conta".
Mas então vem o grau três, aquele em que se torna
evidente que o indivíduo é alcoólico. O Dr. Donald
B. Douglas, do Hospital Lenox Hill em Nova Iorque,
compara-o ao cancro, na sua contínua evolução para o
fim inevitável, quando deixado sem tratamento. Tal
como o cancro, mais tarde ou mais cedo chegará o
ponto em que a doença venceu. Nesse estado, é comum
o síndroma do "fim de semana desaparecido", ou seja:
a doente, de um momento para o outro, torna-se
incapaz de se recordar de qualquer coisa que tenha
acontecido nas últimas 12, 24 ou 48 horas. Por vezes
ela sente que está num quarto desconhecido com um
estranho. Uma jovem de vinte e poucos anos veio a
descobrir que se tinha casado com um homem que mal
conhecia, por ter estado durante uma semana
"desaparecida" e durante a qual ela parecia
completamente sóbria, enganando por completo o homem
e o próprio oficial do registo civil.
Outros sintomas aparecem, frequentemente como
resultado de danos no cérebro: nervosismo e
tremuras, fala incoerente, desleixe pessoal, andar
descoordenado e insónias. Este é o ponto em que
todos à sua volta se vão dar conta que não estão
apenas perante uma bebedora excessiva mas sim, uma
alcoólica. Você já chegou ao fundo. A menos que, por
qualquer forma, se liberte da bebida e leve uma vida
de total sobriedade, a sua vida só tem duas saídas
possíveis: a morte ou a loucura.
EXISTE ALGUMA DIFERENÇA ENTRE ALCOÓLICOS E
ALCOÓLICAS ?
Estudos tentaram descobrir a diferença. Um
relatório sugere que a mulher necessita de menos
álcool para atingir a embriaguês; um outro indica
que quando ela se encontra no período menstrual é
mais afectada. Estas descobertas estão ainda por
provar mas já foi demonstrado sem margem para dúvida
que, embora a mulher tenha tendência para começar a
beber mais tarde que o homem, elas passam pelo
primeiro e segundo graus muito mais rapidamente.
Elas têm também uma maior tendência que os homens
para contraírem doenças de fígado provocadas pelo
abuso do álcool.
Costumava dizer-se que enquanto o homem aprecia
beber em companhia, as alcoólicas preferem fazê-lo
em segredo. Ruth Maxwell diz-nos pela sua
experiência isso não é verdade. Ela afirma "Todos os
verdadeiros alcoólicos ocultam o que bebem. Só que
os homens bebem com os companheiros para além
daquilo que bebem às escondidas, enquanto que as
mulheres alcoólicas raramente se arriscam a
embriagar-se em público. Existe uma enorme dicotomia
na forma como, por um lado, se perdoam os alcoólicos
e por outro, se desprezam as mulheres com o mesmo
problema.
QUE TIPO DE MULHERES TEM TENDÊNCIA PARA O
ALCOOLISMO?
Antigamente considerava-se que as donas de casa
tinham mais tendência para o alcoolismo que as
mulheres que trabalhavam. Ensinavam-nos que era
assim porque as domésticas estavam sozinhas em casa,
aborrecidas, frustradas, ressentidas com as
crianças, com o trabalho doméstico por fazer e com o
armário das bebidas à mão. Mas isto só parecia ser
verdade porque naqueles tempos havia muito mais
mulheres domésticas que trabalhadoras.
Agora, que há tantas mulheres a trabalhar fora de
casa, outras estatísticas estão a destronar este
mito. De facto, um programa de pré-tratamento
destinado aos trabalhadores da indústria descobriu
que numa determinada fábrica, oito porcento dos
trabalhadores com problemas de alcoolismo eram
mulheres e mais, que no caso em análise, as mulheres
representavam oito por cento do total dos
trabalhadores. Por outras palavras, a relação
trabalhadores alcoólicos / trabalhadoras alcoólicas
era de um para um! O mesmo relatório sugeria que
pode mesmo haver mais mulheres alcoólicas do que
homens porque, como os pesquisadores descobriram:
Quando uma mulher começa a caminhada rumo ao
alcoolismo, ela normalmente desiste voluntariamente
de trabalhar e vai para casa para se tornar numa
"bebedora escondida".
As pessoas gostavam de pensar que as alcoólicas
são originárias das classes mais pobres ou das mais
ricas. Mas, cada vez mais começamos a perceber que a
jovem editora que nos eventos sociais, bebe demais
para poder regressar a casa sozinha, ou a atraente
secretária divorciada que falta muitas vezes à
segunda feira, ou que "adoece" depois de almoço, são
ambas alcoólicas. Existem tantas possibilidades da
trabalhadora moderna e independente, quanto a
doméstica antiquada, serem bebedoras excessivas. Se
alguma diferença houver é que o alcoolismo é na
doméstica mais fácil de manter porque ela não tem
que se preocupar em esconder as provas.
Toby Levinson, psicólogo no Instituto de
Psiquiatria Clarke, no Canadá, declarou numa
entrevista, "O alcoolismo está a aumentar entre as
mulheres que vivem sós. Elas estão sós, isoladas e
não têm nenhum dos apoios nem mesmo os das
alcoólicas domésticas, em termos de maridos e
filhos." Isto é igualmente verdade em relação às
mulheres americanas. A única pista da sua
dependência, acrescenta Levinson, pode encontrar-se
talvez através do seu recorde de mudança de
empregos.
COMO COMEÇA O ALCOOLISMO?
As alcoólicas normalmente invocam determinada
crise na sua vida como a causa de terem começado a
beber, de se terem descontrolado, ou beberem demais.
Elas procuram sempre encontrar uma razão lógica que
justifique mais uma bebida. Frequentemente deitam as
culpas sobre alguém: "o meu marido está sempre a
implicar comigo", "o meu patrão anda a
aborrecer-me". Presentemente é popular pôr as culpas
nos problemas de ser mulher num mundo de homens.
Ainda assim, Rute Maxwell observa: "Duas pessoas
exactamente com os mesmos problemas, uma pode
tornar-se alcoólica e a outra não."
Na realidade, o alcoolismo começa pela refutação.
Não há uma única alcoólica que ainda beba, que
reconheça que tem um problema com a bebida. É
claro que ela bebe imenso - e arranja montes de
razões para o fazer - mas no essencial a sua doença
consiste na sua incapacidade para ver que entrou num
vício e num desejo compulsivo e descontrolado.
Para o alcoólico, o álcool actua no seu sistema
como uma espécie de alergia. Uma pessoa tanto pode
ser capaz de beber durante anos e anos antes de se
deixar apanhar pelo vício, ou a sua tolerância pode
baixar logo a partir da primeira bebida. Seja qual
for o padrão, o alcoolismo só será detectável depois
da pessoa já estar enredada.
COMO PODE SABER SE VOCÊ É UMA ALCOÓLICA?
Não há forma de saber, seja por exame físico ou
psicológico, se uma pessoa é dependente do álcool.
Mas existem certos sinais de perigo. Coloque a si
mesmo, ou aos seus amigos, as seguintes questões:
1. Bebe com sofreguidão?
2. Faz promessas, a outros ou a si própria,
acerca de beber menos ou passar a ser mais
cuidadosa com a bebida?
3. Você mente para ocultar o que bebe, ou
minimiza o número de bebidas que tomou?
4. Você bebe antes de ir para uma festa, ou
antes de um encontro, onde sabe que há bebidas
disponíveis?
5. Necessita de beber com intervalos
regulares - um "drinque" sempre às cinco, ou uma
bebida sempre ao almoço, ou antes de dormir?
6. Necessita de dedicar, diariamente, uma
parte do seu tempo para beber, apesar disso
trazer inconvenientes para os outros?
7. Mistura sempre a bebida com acontecimentos
especiais: uma ida ao teatro, concertos,
acontecimentos desportivos, pic-nics?
8. Antes de enfrentar uma situação difícil
você necessita de uma certa quantidade de
bebidas?
9. Você usa a bebida para acalmar os nervos?
10. Você busca a bebida quando se sente em
baixo?
Se você respondeu SIM a mais de duas ou três das
perguntas acima, é melhor reconhecer que você é um
daqueles um em cada dez, que está a ficar preso pelo
álcool.
Você pode dizer: "mas eu só bebo cerveja..".
Assim pensava Marie Neenan e Pat Frye também. A
cerveja parece bastante inocente. Afinal qualquer um
pode comprar uma embalagem de seis no supermercado
da esquina. O facto é que existe tanto álcool numa
cerveja como num cálice de whisky ou num whisky com
soda. O vinho também é forte. Um bom Jerez tem cerca
de 40 graus, o que significa que um copo de vinho
normal contêm tanto álcool como uma caneca ou lata
de cerveja. Independentemente da forma como é
apresentado, o álcool é viciante, é cancerígeno, é
veneno!
COMO DISTINGUIR SE UMA AMIGA É ALCOÓLICA?
Um dos sinais mais marcantes do vício numa mulher
é a necessidade de ocultar o facto de todos os que a
rodeiam. E por uma boa razão! Ao contrário do homem
alcoólico, a mulher com inclinação para o alcoolismo
é desprezada e rejeitada. Está confirmado
estatisticamente que enquanto a mulher de um
alcoólico normalmente não se afasta do marido, o
marido duma alcoólica frequentemente abandona a
esposa, levando por vezes os filhos consigo.
Sabemos duma mulher que esconde a garrafa num
pacote de detergente, debaixo do lava-louça. Outra,
que passava os dias embriagada, conseguia vestir-se
à pressa e dar uma arrumadela na casa, mesmo à
justa, antes da chegada do autocarro da escola. Uma
outra ainda, guardava o vinho numa velha garrafa de
lixívia em casa, no fundo do armário das vassouras,
na casa de banho.
Mas há nove indícios de alcoolismo muito difíceis
de ocultar:
1. Se ela aparenta ficar embriagada depois
duma ou duas bebidas apenas, a sua amiga pode
ser alcoólica.
2. Se ela amua, é imprevisível ou tem
tendência para evitar ocasiões sociais que antes
ela gostava, pode ser uma alcoólica.
3. Se a razão de faltas ao trabalho continua
a aumentar, especialmente às Segundas-feiras ou
depois de períodos de férias.
4. Se ela mantém à distância pessoas que
fazem barulho, por pequenas razões,
especialmente à noite, pode ser alcoólica.
5. Se ela usa refrescantes para a boca e
outros disfarces do hálito.
6. Se ela frequentemente evidencia hematomas
resultantes de quedas ou se queima por falta de
cuidado.
7. Se continua, com pesadelos ou insónias e
fala em tomar comprimidos para dormir.
8. Se ela tem períodos em que parecer estar
bem e se comporta normalmente, mas mais tarde
não se lembra do que disse ou fez.
9. Se ela esconde bebidas alcoólicas pela
casa, você pode estar certo de que é alcoólica.
O QUE FAZER SE SUSPEITAR DE ALCOOLISMO ?
Antes da embriaguês, que é o "hábito", se tornar
em alcoolismo, que é "doença", ninguém tinha pena
dos vagabundos. Então o alcoolismo começou a ser
compreendido e os alcoólicos passaram a ser
lastimados em vez de desprezados. Até muito
recentemente, o método de aproximação usual
consistia em perdoar os caprichos dos alcoólicos,
confortá-los nas suas más disposições, cortar-lhes o
acesso às bebidas e esperar que se sentissem tão mal
que, por si sós, se decidissem a recuperar-se.
Então, os peritos começaram a aperceber-se que o
alcoólico só se recupera depois de chegar ao "fundo"
- quando se sentem tão repugnantes e cheios de asco.
Só então, estão disponíveis para aceitar a realidade
de que já não têm controle na bebida mas sim que a
bebida passou a controlá-las e isso está a arruinar
as suas vidas.
Algumas alcoólicas atingem o "fundo" ainda a
tempo de se recomporem. Outras só lá chegam quando
já todos os seus parentes e amigos lavaram as mãos
do seu caso e sozinhas deixam-se embrenhar tão
profundamente no álcool que ficam num estupor
alcoólico e quase morrem de má-nutrição. Noutros
casos ainda, só chegam ao fundo para morrer, devido
ao consumo simultâneo de álcool e comprimidos para
dormir (uma complicação comum, especialmente entre
as mulheres) elas morrem por um efeito combinado de
bebidas e drogas, como foi o caso da morte de
Marilyn Monroe. Infelizmente, as mulheres alcoólicas
são muito mais frequentemente impedidas de chegarem
ao fundo que os homens. Os parentes protegem-nas das
consequências das suas acções, os amigos e os
patrões encobrem-nas e até mesmo a polícia quando se
depara com uma mulher embriagada, faz de conta que
não vê.
Mas, Ruth Maxwell, no seu livro "A Batalha das
Bebidas: Uma aproximação que funciona, baseada no
senso comum", sugere que retiremos a nossa
protecção e que ainda, forcemos a alcoólica a ir ao
"fundo", só então veremos que ela vai pedir socorro
antes que ela torne o dano irreparável. Ruth
disse-me "se pararmos de proteger a alcoólica das
consequências do seu vício, se permitirmos que ela
veja o mal que está fazendo a ela própria e aos que
a rodeiam, podemos forçá-la a ver a realidade da sua
situação." "NÃO esconda as bebidas, diz-nos Ruth; a
alcoólica acaba por descobri-la e ainda arranja
mais. NÃO evite ocasiões sociais onde ela possa
ficar embriagada, não lhe peça para prometer que não
volta a beber, não a recompense nem a ameace por
causa da bebida. Tudo isso é inútil. Chame-lhe
ALCOOLISMO. Deixe-a beber porque de qualquer
maneira, ela não é capaz de parar e deixe-a passar
por todas as situações dolorosas e humilhantes: a
ameaça de perder o emprego, os efeitos da bebida em
si e nela própria. A dor e humilhação fornecem
frequentemente a primeira motivação para que a
alcoólica procure alcançar ajuda e deixar de beber."
Parar de beber é a única resposta para a
alcoólica. Isso foi provado e confirmado durante um
estudo de cinco anos levado a cabo na Universidade
da Carolina do Norte pelo psiquiatra John Ewing.
Usando terapia de aversão e técnicas de apoio, o Dr.
Ewing tentou ajudar alcoólicos a controlarem o
consumo de álcool e falhou, não conseguindo que um
só alcoólico bebesse apenas uma ou duas bebidas e
parasse.
Mas, para deixar de beber, a alcoólica necessita
de ajuda e não é qualquer tipo de ajuda que vai
resultar. Muitas mulheres tentam a psicanálise, a
qual se tem mostrado totalmente ineficaz. De facto,
muitos dos bons psicanalistas recusam-se a trabalhar
com alcoólicos. Muitas mulheres consultam os seus
médicos, a maior parte das vezes não para se curarem
mas apenas buscando alívio dos sintomas - ansiedade,
insónia e depressão. Incapazes de, na maior parte
das vezes, reconhecer estes sintomas, o médico
prescreve comprimidos. Sendo particularmente
susceptível a vícios secundários, a alcoólica cai
frequentemente na fase "bebida e comprimidos". O Dr.
Donald Douglas salienta, num artigo publicado, que
"o tratamento numa luxuosa clínica de desintoxicação
por fisioterapia, ou uma estadia num hospital
discreto, sob um diagnóstico falso, ou o uso comum
de sedativos e tranquilizantes... tudo não passa de
simples métodos de proteger a continuação do
vício... As chamadas "melhoras", ou curas, atingem
apenas um quarto, ou quando muito, um terço, da
população alcoólica que consegue manter-se
abstinente, por vezes por períodos prolongados." E
conclui, "A libertação do vício não termina na
abstinência; ela começa com abstinência."
Existem três formas através das quais o alcoólico
pode ser ajudado a abandonar a bebida – e a recusar
a próxima que lhe venha a ser oferecida.
A primeira e mais antiga é através dos Alcoólicos
Anónimos. Os AA têm sido bem sucedidos desde o seu
começo; três quartos dos seus membros foram bem
sucedidos na sua libertação duma doença que, até ao
aparecimento dos AA era quase totalmente incurável.
O Dr. Douglas explicou como funcionam os Alcoólicos
Anónimos: "Depois de ouvir os testemunhos verídicos
de outros alcoólicos, a doente sente uma dificuldade
crescente em negar o seu alcoolismo, e isso tira-lhe
a vontade de beber ... um inabalável reconhecimento
é imprimido pelo muito esforço para negá-lo: o
aumento progressivo do consumo, a imprevisível perda
de controlo depois da primeira bebida, as típicas
negações…" O Dr. Douglas faz notar que muitas das
reuniões AA são abertas a toda a gente e sugere que
muitas das alcoólicas levadas contra vontade a uma
essas reuniões podem vir a ser ajudadas pela
experiência de perceberem que ali é o seu lugar.
Um recente desdobramento dos AA foram os
programas de recuperação de alcoólicos levados a
cabo pelas grandes empresas. Uma pesquisa feita pelo
Instituto Nacional do Abuso do Álcool, demonstrou
que das 149 grandes empresas sediadas em Nova
Iorque, 51 desenvolveram programas de tratamento
para os seus empregados. A maioria utiliza recursos
exteriores tais como os AA, mas o seu próprio
pessoal é treinado para detectar pessoas suspeitas,
por causa do seu absentismo ou outros indícios
típicos do alcoolismo. Os pesquisadores descobriram
que, quando uma mulher é ameaçada de perder o
emprego se não se tratar, isso é muitas vezes a
motivação de que ela necessita.
Muitas mulheres necessitam apenas do apoio dum
grupo do tipo AA. Mas outras há que já vão tão
avançadas no seu vício que já têm convulsões,
delírio, histeria e outros problemas graves. Para
elas, o primeiro passo a dar na sua recuperação é a
desintoxicação, através da admissão num centro
especializado para ressacar e reabilitarem-se (dura
normalmente 5 a 7dias mas por vezes vai até quatro
semanas).
O terceiro apoio disponível para os alcoólicos
que querem chutar das suas vidas o hábito da bebida
é o uso de uma outra droga - o "antabus". É barato,
dura até cinco dias por dose e não tem efeitos
maléficos para o organismo, excepto quando um trago
de cerveja, whisky ou vinho é absorvido. Então todo
o inferno parece soltar-se: os olhos ficam
esbugalhados, a face escalda, violentas dores de
cabeça, fortes batidas do coração, os pulmões fazem
ruído, o estômago revolve-se. Esta droga não resulta
com todos e algumas pessoas não a podem utilizar por
causa dos seus efeitos secundários, mas para muitos
outros, que desejam verdadeiramente permanecer
sóbrios, o "antabus" tem provado ser um forte
suporte para muitos que realmente querem permanecer
sóbrios.
UMA ALCOÓLICA PODE CURAR-SE ?
Uma alcoólica não pode ser curada; a sua
enfermidade apenas pode ser detida. Contrariamente
aos noventa por cento de todos nós, ela faz parte
daqueles dez por cento que não conseguirão nunca
beber ocasionalmente e com controlo. Mas, se ela
seguir as linhas de orientação dos AV pode levar uma
vida feliz e saudável. As regras são: permanecer
sóbrio um dia de cada vez; nunca esquecer que a
primeira bebida é que embriaga; e recordar sempre
que, tal como alguém que sofra da febre dos fenos,
você será sempre uma alcoólica.
Não há alcoólico "típico". Mas certos sintomas
são sintomáticos da doença: racionalização,
refutação, procurar lançar as culpas sobre os
outros. Os casos de Marie Neenan e Pat Frye ilustram
a progressão da doença.
Muitas alcoólicas recuperadas insistem em manter
o seu anonimato, receosas pelos seus empregos e
também para não ferir os entes queridos, isto por
causa do estigma ligado às mulheres que bebem. Mas,
Marie e Pat consentiram corajosamente em deixar aqui
o seu testemunho na esperança de que você, ou a sua
família, se sintam motivados a pedir auxílio antes
que seja demasiado tarde.
MARIE NEENAN
Maria cresceu no seio duma família que gostava de
se divertir e a bebida fazia parte do divertimento.
Casou com um homem amigo da bebida, dado a festas e
frequentemente eles continuavam bebendo depois da
festa terminar, indo para a cama embriagados. "Eu
bebia como um homem, nunca ficava atordoada e tinha
orgulho nisso". Só quando chegou ao ponto de
necessitar de duas ou três bebidas antes da festa e
começar a ter cuidado em ocultar o que bebia, ela se
deu conta que a sua maneira de beber era diferente
da maior parte das pessoas. "Eu sentia-me culpada e
embaraçada, mas nem por isso parei."
Mais tarde, tinha ela vinte e poucos anos, o seu
casamento rompeu-se. "Tudo o que eu precisava" dizia
ela "para uma desculpa para beber, era do tipo
‘coitadinha de mim’. Eu julgava que bebia por ter
problemas mas, de facto, tinha problemas porque
bebia. Apenas cerveja, nada forte..." dizia a ela
própria: "Cerveja era suficiente"; racionalizava;
"mereço uma bebida porque estou sozinha com as
crianças o dia todo". "Apenas tomo uma cerveja
porque torna-se mais fácil descascar as batatas".
"Apenas uma bebida para me acalmar". Quando os
filhos estavam na escola, por vezes, dormia as suas
sonecas, no tapete da sala!
Agora ela já tinha passado ao grau seguinte do
alcoolismo, a fase de beber sozinha. Quando os
amigos apareciam, ela escondia a lata da cerveja. Se
um amigo lhe oferecesse uma bebida, ela
perguntava-lhe as horas. Aos vinte e oito anos ela
já estava irremediavelmente viciada. Se para um
homem embebedar-se é mau, diz-nos agora Marie, para
uma mulher alcoólica é dez vezes pior. Verifica-se
um estado de grande solidão porque uma mulher não
pode confiar em ninguém, ficar à porta dos bares por
não conseguir regressar a casa ou acordar com homens
que não conhece. Um homem pode deixar-se na sarjeta,
levantar-se, recuperar e voltar a ser um cavalheiro.
A mulher alcoólica, mesmo quando está sóbria,
verifica que é repugnada por todos.
Começa a fase da alcoólica se esconder, não quer
sair à rua. Passado algum tempo isso assustou Marie
e ela reagiu. Tentou parar de beber e esteve dois ou
três dias sem beber - sentiu os sintomas de ressaca,
convulsões, tremuras e os nervos descontrolados.
Para tentar fechar o ciclo, regressou ao trabalho.
Arranjou um bom emprego, que implicava bastante
responsabilidade. "Eu pensei que a trabalhar não
iria ter tempo para beber. Mas em vez disso começava
a beber mal chegava a casa. Dizia a mim própria que,
depois dum dia de trabalho merecia uma bebida para
relaxar; afinal não é verdade que muita gente que
trabalha bebe os seus drinques quando chega a casa?"
A Marie voltou a casar. "Foi amor à primeira
bebida. A sua única condição era que esperasse para
abrir a primeira cerveja até que ele chegasse a
casa. Um grande problema das mulheres alcoólicas é
que os seus maridos não querem que elas deixem de
beber completamente, mas que, apenas bebam menos.
Eles querem ter uma parceira para a bebida". O seu
marido ficava pedrado e ia cedo para a cama. Mas ela
não - mesmo depois de ter estado a beber
furtivamente todo o dia e de ter acompanhado o
marido à noite. Sozinha, continuava a beber e
enquanto via televisão, pensando que estava a fazer
o que toda a gente faz. Mudaram-se para os subúrbios
e ela comprou dois frigoríficos para as suas
cervejas. Nem mesmo o nascimento dum terceiro filho
a fez abrandar.
Aos trinta e poucos anos, Marie atingiu o estado
das grandes falhas de memória. Ela tinha regressado
ao trabalho e estava começando a "almoçar" cada vez
mais cedo, primeiro às 11.30 h, depois às 11.00 h e
escolhendo para cada dia da semana um restaurante
diferente a fim de que pessoas não dessem conta.
Vomitava frequentemente e dizia a si própria, que
quem bebe, vomita. Esquecia-se das coisas com
facilidade e dizia a si própria que quem bebe,
esquece. Era capaz de servir um jantar de festa
completo e acordar na manhã seguinte sem mesmo se
lembrar que tinha havido esse jantar. Certa vez,
acordou, depois de cinco dias de amnésia e deu
consigo num banco a receber um cheque avultado da
empresa. Em pânico, ligou finalmente para uma
organização que ajuda alcoólicos.
Faz agora dez anos que Marie está sóbria. De
princípio ela vivia com o receio de que alguém no
seu emprego viesse a saber que ela tinha sido uma
alcoólica. "Os patrões não gostam de ter alcoólicos
por perto, nem mesmo ex-alcoólicos. Todos sabem que
em cada quatro, um deles não vai conseguir manter-se
no bom caminho e ninguém quer dar uma oportunidade a
essas excepções". Mas uma vez, quando ela não estava
necessitando muito do seu próximo emprego, ela
declarou a sua doença na ficha de candidatura. Para
sua surpresa, ela não só foi contratada como foi-lhe
solicitado que ajudasse a aconselhar uma alcoólica.
Há seis anos que ela ajuda alcoólicos e fá-lo agora
profissionalmente, como conselheira para problemas
de alcoolismo, num grande hospital da sua cidade.
"Só vivo um dia de cada vez", diz Marie. "E
dia-a-dia esculpi uma vida nova".
PAT FRYE
Aos vinte e três anos Pat era divorciada, mãe de
dois filhos e uma alcoólica desesperada. O vício da
Pat começou na sua adolescência. Os seus pais eram
alcoólicos e à noite, quando lhes trazia cerveja ou
bebidas fortes depois do jantar, permitiam que ela
também bebesse num pequeno cálice, cheio. "Descobri
rapidamente que o álcool me fazia parecer como eu
desejava ser, inconsciente, bem humorada, esperta,
capaz de me enfurecer e dizer tudo o que queria."
Entre as colegas da escola secundária ela encontrou
muitos que também bebiam. Da forma como a maior
parte das raparigas sonham em ser famosas e
encontrarem um verdadeiro amor, ela e as suas
colegas sonhavam em ser crescidas, andarem bem
vestidas e irem juntas a bares de classe, beber "drinques"!.
Apesar de Pat nunca ter pegado num livro,
concluiu o curso secundário aos dezasseis anos.
("Calculem o que eu podia ter sido se não fosse uma
alcoólica! Em vez disso eu ganhei a reputação de ser
uma rapariga que vomitava, fazia figuras parvas,
tinha "falhas" de memória e ria-me disso no dia
seguinte.")
Casou-se com um "quase desconhecido" assim que
acabou o curso, a fim de "poder fazer o que me
apetecesse". Mas o que lhe apetecia era beber e vida
agitada. O marido não bebia e esperava que ela
cozinhasse, tratasse da casa e dos filhos. Ela tinha
os filhos bem tratados e ia prometendo deixar de
beber. Mas, sem força ou motivação para manter a
promessa, mentia, mendigava crédito e roubava no
supermercado do bairro a fim de manter a sua reserva
de cerveja. Ela foi sempre bebendo durante cinco
anos, enquanto os seus pais, talvez ingenuamente a
ajudavam a tomar conta dos netos.
Por fim, foi aconselhar-se com uma conselheira
matrimonial. "Eu disse-lhe que tinha um problema de
bebida, mas ela concentrou-se no casamento. Se ela
tivesse sugerido os AA ou similar, eu talvez pudesse
ter ido procurar ajuda nessa altura. "Eu estava tão
em baixo". Em vez disso tentou o suicídio, bebendo
desinfectante. Depois duma noite passada no
hospital, foi mandada para casa. "Eu estava
implorando auxílio através das minhas acções, mas
ninguém se apercebeu disso". Desta vez ela tentou
suicidar-se com gás do fogão e mais uma vez ela foi
salva de uma morte rápida, mas não da morte lenta
que o alcoolismo estava operando nela.
O divórcio chegou, com ele a solidão e mais
razões para beber. Sóbria, ela era uma boa mãe;
quando embriagada, gritava com os filhos e
atirava-lhes com coisas.
Subitamente a Pat entrou numa nova fase de
bebida. Tendo voltado a casar, reuniu todas as suas
forças para agradar ao novo marido. Aos fins de
semana eles enchiam-se de vinho porque o vinho
"aliviava a úlcera dele". Durante a semana, enquanto
ele ia para o seu bem/pago emprego, ela bebia o
suficiente para aliviar a dor, sem desfalecer ou ter
crises de amnésia. Um ano depois teve a sua terceira
filha. Parou de beber completamente nos últimos dois
meses da sua gravidez, porque lhe provocava náuseas,
mas quando voltou para casa com a filha, o médico
cometeu o erro terrível de sugerir-lhe que tomasse
um pouco de vinho para a ajudar a dormir. "Foi uma
licença para voltar a beber."
Desta vez a progressão foi mais rápida: sentia-se
aterrorizada de manhã e durante a noite, tinha
alucinações visuais e auditivas. "Eu só saía de casa
para comprar cerveja e vinho". A minha vizinha
passava lá por casa uma vez por dia para se
assegurar que a minha filha estava bem. Um dia
feri-me no pé e estive a sangrar todo o dia. Eu
apenas fiquei sentada, a beber, e a ver o meu pé
sangrar. Nessa altura perdi toda a esperança de
voltar a estar sóbria. Eu pensava que não era capaz
de enfrentar a vida sem álcool."
Então, ela e o marido encontraram uma pessoa numa
convenção de negócios e vieram a saber que ele era
um alcoólico recuperado. Ele disse-lhes sem rodeios
o que tinha sido o seu caminho. Saíram dali juntos
para a organização que o tinha ajudado, a qual
passou também a ajudar também a Pat e seu marido.
Pat tem estado sóbria por mais de quinze anos.
Durante muito tempo ela trabalhou como secretária,
sempre com receio que alguém viesse a saber o seu
passado e a despedisse. "Ninguém quer empregar um
ex-alcoólico, especialmente uma mulher." Há cerca de
um ano ela teve a oportunidade de se tornar
conselheira para a reabilitação de alcoólicos no
mesmo hospital onde trabalha Marie. "Infelizmente"
diz ela "trabalho principalmente com homens, pois
muito poucas mulheres nos vem procurar. Até alcançar
uma certa idade, uma mulher pode vender o seu corpo
para obter dinheiro para vinho ou viver com um homem
que lhe dê abrigo e lhe vá mantendo o fornecimento
de bebidas. Por causa de ter sido protegida durante
tanto tempo, uma mulher atinge frequentemente
situações muito mais graves do que os homens.
Ninguém se dá conta da sua cara, da sua fealdade e
degradação até ser demasiado tarde, quando a única
solução é o asilo para mulheres.
"Tenho visto mulheres nesses asilos, com o
cérebro tão danificado pelo álcool que são
autênticas mortas-vivas. Eu também vou a esses
lugares, mas pela graça de Deus".