Na
entrevista seguinte, Anderson Spickard, Jr., fala
sinceramente dos problemas de abuso do álcool e
alcoolismo dentro da Igreja e oferece algum
conhecimento profundo para as preocupações dos
cristãos com o desenvolvimento de uma perspectiva
saudável a respeito do consumo do álcool.
Spickard
é o director-geral de uma clínica, professor de
medicina no Centro Médico Universitário de
Vanderbilt e fisioterapeuta. É membro do colégio
americano de fisioterapeutas e orador frequente no
assunto do alcoolismo nas escolas médicas e Igrejas.
Hoje em dia o alcoolismo é o terceiro maior problema
de saúde nos Estados Unidos e sabe-se que destrói
directamente a vida de qualquer um em cada quatro ou
cinco americanos. Qual é a dimensão do problema
dentro da igreja?
O
alcoolismo não é tão implacável na Igreja como é na
sociedade em geral, mas todos nós poderíamos ser
surpreendidos se conhecêssemos a extensão do
problema nas nossas Igrejas locais. Eu pertenço a
uma grande congregação e pessoalmente conheço cinco
ou seis membros que estiveram seriamente doentes por
causa do alcoolismo. Só Deus sabe quantos mais
existem que bebem secretamente.
Há um
aumento incidente de roturas familiares, famílias
disfuncionais e divórcios, nas nossas igrejas
evangélicas. A partir somente deste desenvolvimento,
penso que é seguro supor que o alcoolismo e outras
formas de dependência química estão a assumir um
papel maior do que geralmente acreditamos.
Além
disso, devem ser milhares, talvez milhões as pessoas
que experimentaram a graça salvadora de Jesus quando
eram crianças ou adolescentes e acabaram por
abandonar a Igreja por causa do seu problema de
alcoolismo. Este grupo de pessoas constitui uma
subclasse de absoluto desespero no corpo de Cristo.
Cristãos praticantes podem ser, ou tornarem-se
alcoólicos. Como é que isto acontece?
Da mesma
forma que acontece com qualquer outra pessoa.
Existem muitos factores, mas dois são mais
marcantes: uma predisposição genética para o
alcoolismo e um hábito sustentado de beber.
Cada vez mais
está claro, que há uma susceptibilidade física
hereditária para o alcoolismo. Um estudo recente
feito na Suíça, onde os recordes de adopção são
mantidos, mostra que os filhos de pais alcoólicos
colocados à nascença em casa de famílias não
alcoólicas, correm um risco de nove para um de se
tornarem alcoólicos, comparando com os que nascem de
pais não alcoólicos. Esta é uma estatística
extraordinária.
E segundo lugar,
uma pessoa que bebe dois ou três copos, três ou mais
vezes por semana ou mais, coloca-se a si mesmo numa
posição problemática. O tempo que leva o problema a
instalar-se varia de pessoa para pessoa e da
quantidade de bebida que ingere, mas geralmente, num
período de sete a dez anos, este comportamento de
beber pode levar a pessoa ao alcoolismo, mesmo na
ausência de uma predisposição genética.
Existe uma "personalidade alcoólatra", ou traço
característico específico, que torna a pessoa mais
propensa a tornar-se num alcoólico?
Não.
Muitos estudos têm sido feitos na tentativa de
estabelecer uma ligação entre certos tipos de
personalidades e o alcoolismo, mas não há evidências
de que um tipo de personalidade seja mais vulnerável
do que outro. Qualquer pessoa pode tornar-se um
alcoólico – mesmo ministros ou médicos.
Como é que distingue uma pessoa que simplesmente
bebe demasiado, de um alcoólico crónico?
Os
homens e as mulheres que apenas abusam do álcool
fazem-no no controlo da sua própria vontade, ao
contrário dos alcoólicos que normalmente, nunca se
demitem da sua escolha. Talvez um membro da igreja
se embebede numa festa, na véspera do ano novo, por
"acidente" e apanhe uma intimação judicial por estar
"intoxicado enquanto conduzia". A família fica
zangada e ele, socialmente envergonhado promete não
voltar a beber. Este é o final do seu problema.
Este
género de abuso de álcool, pode não trazer outras
sérias consequências mas é notado muito claramente
nas Escrituras. Jesus e Paulo, avisaram
repetidamente, que os beberrões não herdam o reino
de Deus (Lucas 21:34, I Cor. 6:10, Gál. 5:21). Não é
difícil compreender porque é que eles falaram tão
fortemente: o abuso do álcool está envolvido na
maioria dos crimes, na maior parte dos assaltos, na
maior parte dos casos de abuso infantil, nas maiores
fatalidades relacionadas com tráfego– a lista é
interminável. Fazemos um grande prejuízo a nós
mesmos e à sociedade inteira quando nos rimos da
embriaguez ou a tratamos superficialmente.
Por
outro lado, o alcoólico é alguém que tem sido
aprisionado pelo álcool, alguém que literalmente não
pode parar de beber. Ele ou ela está preso a uma
progressiva e completa destruição do seu ser físico,
mental e espiritual. Fisicamente, começa a sofrer de
má nutrição e sérios danos no fígado, na zona
digestiva e no sistema nervoso central. Emocional e
intelectualmente, começa a ficar cada vez mais
preocupado com a bebida, com a necessidade de negar
que tem um problema e com a frequente ocorrência de
esquecimentos– períodos de tempo nos quais o
alcoólico age perfeitamente normal, no entanto, mais
tarde não se recorda de nenhum dos acontecimentos
que ocorreram. Espiritualmente, o alcoólico afoga-se
na culpa, no medo e na vergonha; Quanto mais perde o
controlo em si mesmo, mais é consumido pelo ódio a
si próprio.
Obviamente, estas três áreas – física, mental,
emocional e espiritual – estão intimamente
relacionadas. É por isso que alguns chamam ao
alcoolismo uma doença do corpo, da alma e do
espírito.
Quando os médicos e profissionais de saúde mental se
referem ao alcoolismo como uma doença, muitos
cristãos ficam incomodados. Vêem este rótulo como um
estratagema comportamental ou outra interpretação
"humanística" do pecado que desculpa a
responsabilidade do alcoólico pelo seu próprio
comportamento. Qual é a sua posição?
O abuso
do álcool – a embriaguez é um pecado. A Escritura é
clara neste ponto. Mas uma vez que uma pessoa é um
alcoólico, uma vez que permitiu que a sua própria
vontade fosse aprisionada pelo álcool devido ao seu
abuso, está doente. Não pode ajudar-se a si mesmo
durante mais tempo. Dizer a um alcoólico para se
desenvencilhar e parar de beber é como dizer a um
homem que acabou de saltar de um monumento histórico
de nove andares para se atirar apenas de três. Isto,
apenas, não vai acontecer.
Se
definirmos o alcoolismo como uma doença física, sem
a dimensão espiritual, isso sim, pode ser humanismo.
Existem muitos médicos e cientistas à procura de uma
cura física para o alcoolismo. Na minha opinião, não
vão encontrá-la. Uma pessoa pode ter uma doença
física como cancro ou tuberculose e continuar
perfeitamente bem emocional e espiritualmente, mas
ninguém pode cair no alcoolismo sem descer
completamente a nível físico, mental e espiritual.
Não irá ficar bem até ser recuperado nestas três
áreas. Insistir nestes factos não é humanismo; é ter
uma compreensão total do paciente.
Depois
de ter dito tudo isto, sei que o modelo de doença
continua controverso. Sobretudo, é um problema na
comunidade médica porque, ainda nenhum mecanismo
físico específico tem sido isolado como a causa do
alcoolismo.
Então qual é a finalidade de usar o termo doença?
A
finalidade é tirar o alcoólico da arena da sociedade
moralizante para as mãos de pessoas que podem
ajudá-lo. A percepção comum dos alcoólicos é de que
eles são casos perdidos mas 60% a 70% de todos os
alcoólicos que entram em programas de tratamento,
recuperam. É uma estatística extraordinária para
qualquer doença! (Esta alta percentagem é aplicada
aos alcoólicos empregados, integrados em programas
de assistência, que têm trabalhos estáveis,
estruturas familiares e conhecimentos académicos
básicos.) Então, enquanto esperamos que a ciência
descubra um mecanismo biológico que permite que o
alcoolismo possa receber o rótulo de "doença",
podemos salvar muitos alcoólicos desesperados
proporcionando- lhes a ajuda profissional que tão
desesperadamente necessitam. E quanto mais cedo,
melhor é o prognóstico.
Porque é que o alcoólico não consegue ver o seu
problema, com tudo o que o devasta física e
socialmente e se ajuda a si próprio?
Literalmente, o alcoólico não consegue ver-se a si
mesmo como doente. Ele pode sentar-se à nossa frente
a cair de bêbedo, com um nariz intensamente
vermelho, o fígado a desfalecer até à linha pélvica
e continuar a negar que é um alcoólico. Tive um
paciente que passava os dias ajoelhado em frente a
um lavatório, vomitando sangue e bebendo
intermitentemente de uma lata de cerveja. Tanto
quanto lhe dizia respeito, ele não tinha nenhum
problema.
Esta
completa incapacidade de se ver a si mesmo, como
outro, é popularmente conhecido como "carrossel da
negação". É o aspecto mais trágico e menos
compreendido do alcoolismo. Usar o termo "recuperar"
alcoólicos pode não ser compreendido aos olhos
deles. O que todos eles dizem sempre, é, "devo ter
estado doido." Se observar o tempo suficiente o seu
processo de refutar, é difícil argumentar com este
diagnóstico.
É frequente
dizer-se que os alcoólicos costumam descer ao fundo
do poço a nível físico e espiritual, antes de
desejarem aceitar ajuda. No entanto, quanto mais
tempo o alcoólico bebe, mais se prejudica a si
próprio e menos probabilidades tem de recuperar. O
que é que os amigos e os membros da família podem
fazer para parar esta espiral descendente?
Havia um adágio
dos Alcoólicos Anónimos, que dizia que um alcoólico
tinha de bater no fundo antes de poder ser
resgatado. Infelizmente, o nível mais fundo, muitas
vezes significava a morte, prisão ou suicídio. Ainda
é extremamente difícil, permanecer irremediavelmente
a observar alguém de quem se gosta a ir directo a
uma completa deterioração física e espiritual.
O
instituto Johnson no Minnesota tornou pioneiro um
processo chamado "intervenção", o qual parou com
sucesso a espiral descendente para milhares de
alcoólicos e suas famílias. A família reúne-se com o
patrão do alcoólico e este é confrontado com muitos
exemplos específicos do seu comportamento. A
atmosfera é afectuosa, não acusadora, mas firme. A
acumulação de evidências cria um "fundo artificial"
e os muros da refutação são quebrados. O alcoólico é
forçado a ver-se como ele é e, é esperado, que
aceite a responsabilidade da sua condição e inicie
um programa de tratamento.
É
necessário que a família procure ajuda profissional
para intervir na vida de um dos seus membros?
Na minha
opinião, sim. Em primeiro lugar, a família, através
dos anos de vivência com comportamentos bizarros e
imprevisíveis, está normalmente tão doente ou mais
doente que o alcoólico. Em segundo lugar, estas
intervenções são muito difíceis.
Por
tentativas e mesmo com os meus próprios erros, tenho
aprendido algumas lições bastante terríveis. A
segunda intervenção que sempre fiz, foi um assunto
apressado sem um planeamento correcto. O doente era
meu amigo chegado e ficou literalmente consumido
pela ira quando foi confrontado com o seu
comportamento. As suas ameaças foram tão específicas
e substanciais, que tive de ser escoltado pela
polícia durante diversos dias. Ver este amigo tão
incontrolavelmente enfurecido foi um dos
acontecimentos mais traumáticos da minha vida.
O
confronto entre as trevas e a luz, num alcoólico,
pode ser martirizante. Emoções incompreendidas, vão
muito longe quando os seus filhos dizem coisas como:
"Pai, quando trouxe a minha namorada a casa para
conhecer a família, disse-me que podia trazê-la
sempre que quisesse". A hostilidade e a fúria que é
derramada do alcoólico durante estes tempos pode
destruir a família se não estiver suficientemente
preparada.
Uma vez
que a intervenção é bem sucedida e que o alcoólico
entra para tratamento voluntariamente, torna-se a
pessoa mais grata que alguma vez vai conhecer. Ele
esteve no inferno e voltou e o novo nascimento que
está a experimentar vale bem qualquer dos riscos que
envolve.
Porque é que o álcool tem um efeito tão devastador
na vida espiritual dos bebedores excessivos?
O álcool
é uma droga alteradora-de-humor que afecta
directamente a parte do nosso cérebro que controla
as inibições. Todos nós construímos proibições
contra certos tipos de comportamento. Quando estas
restrições são diminuídas devido ao uso do álcool,
achamos muito mais fácil violar os nossos padrões
morais.
Um homem
com valores familiares perfeitamente correctos, pode
beber demasiado, tornar-se eufórico e ir para a cama
com a secretária. Quando o efeito do álcool passar,
deixa-o com profundos sentimentos de culpa e
vergonha – e talvez com um caso de herpes ou outra
doença infecto contagiosa grave como HIV. Se o
pecado não é confessado, os sentimentos são
reprimidos, mas a memória continuará bastante viva e
ficará gravada permanentemente no homem que foi
prejudicado na sua vida moral.
Pondo
isto de outra forma, se se aceita o facto de que a
embriaguez é pecado, o que eu aceito, então beber
excessivamente é apenas mais uma maneira de saciar o
espírito. Deus colocou a sua luz dentro de nós e
esta tem o potencial de arder com tanto resplendor
como o próprio Jesus. O pecado escurece esta luz e a
escuridão da embriaguez é tão negra como qualquer
outra coisa no mundo.
Acha que a igreja está a responder adequadamente à
presença de alcoólicos no seu meio e na sociedade em
geral?
Não. A
Igreja devia estar no primeiro plano de esforços
para ajudar alcoólicos, porque o alcoolismo tem uma
dimensão espiritual muito acentuada. Infelizmente, a
Igreja reflecte as atitudes da sociedade como um
todo e vê os alcoólicos como pessoas de vontade
fraca e inúteis. Até mesmo cristãos bem
intencionados tratam de bater com a Bíblia na cabeça
dos alcoólicos, avisando-os para se arrependerem dos
seus pecados, dizendo-lhes para não voltarem à
Igreja até que consigam parar com a bebida. Não
importa o quão arrependido o alcoólico se sente por
não conseguir parar de beber e então ele não voltará
à Igreja.
Muitos
membros da Igreja, bem conceituados, ocultam o seu
problema de alcoolismo durante anos. Vão ter com os
seus Pastores queixando-se da família ou de
dificuldades pessoais, mas nunca reconhecem nem
confrontam a raiz do problema. À medida que o seu
alcoolismo progride, vão afastando-se totalmente da
igreja. Estas pessoas não podem suportar por mais
tempo a angústia mental que cai sobre os seus ombros
para com as pessoas que elas compreendem como
evangélicas. O cristão alcoólico convence- se de que
perdeu a salvação e não volta a pôr os pés na porta
da Igreja. É desta forma que, efectivamente, se
isola das pessoas que deviam ser as mais
qualificadas para o ajudar.
Qual o papel positivo que a igreja pode ter?
Uma
igreja em Montgomery, Alabama, fornece-nos um bom
modelo de exemplo. A esposa de um membro veio à
Igreja pedir ajuda porque o marido era alcoólico. A
Igreja investigou o problema, recolheu dinheiro para
o mandar para um tratamento, enviaram-lhe cartões
desejando-lhe as melhoras, oraram por ele todos os
dias e finalmente, deram-lhe as boas vindas a casa
com uma tremenda celebração. O alcoólico
"recuperado" foi recebido como um filho pródigo,
como o homem que tinha sido cego e que agora podia
ver.
Este
homem teve a felicidade de ter uma mulher amorosa,
carinhosa e uma congregação que o ajudou na estrada
da recuperação. Hoje, ele é um dos servos de Jesus
mais entusiásticos e produtivos que eu alguma vez
conheci. Ele esteve muitas vezes no "inferno",
regressou e no processo, deixou o Cristianismo
religioso bem para trás.
Para
interceder desta forma pelos alcoólicos, a Igreja
deve ter um grupo de pessoas que tenham recebido
formação nas áreas da dependência química e do
alcoolismo.
Existem
muitos livros úteis disponíveis e está ao alcance de
qualquer pessoa tornar-se bastante entendido num
curto período de tempo. Costumo dizer às pessoas,
nos seminários que faço nas Igrejas, que em duas
horas vão ficar a saber mais sobre o alcoolismo do
que 90% de todos os médicos.
Este
grupo de pessoas, pode ensinar posteriormente o
resto da Igreja e da comunidade, através de estudos
bíblicos, filmes e aulas práticas criativas. Nem
todas as Igrejas necessitam de ter o seu próprio
serviço de aconselhamento, mas alguém precisa de
saber onde encontrar a ajuda profissional que está
mais próxima. A Igreja deve estar aberta para
receber os Alcoólicos Anónimos (AA), Al-Anon ou
Alcoólicos Vitoriosos (AV).
Muitos
Cristãos Evangélicos sentem-se desconfortáveis com a
vaga espiritualidade dos AA, com o ênfase no "Deus
como tu o conheces".
Eu sei
que há alguns evangélicos que acreditam que os
únicos programas de recuperação fiáveis são aqueles
que nomeiam o nome de Jesus. Do meu ponto de vista
como médico, isto é "visão-curta" e impede muita
gente de alcançar a ajuda que necessita. Por causa
da sua concentração em Deus como um "Poder
Superior", os Alcoólicos Anónimos têm ajudado
milhares de alcoólicos de todas as tendências
religiosas e os cristãos alcoólicos não tiveram
problemas em entender este "Poder Superior" como
sendo Jesus Cristo.
Historicamente falando, os alcoólicos têm-se virado
para procurar ajuda nas profissões que os podem
ajudar, como os médicos e pastores e têm recebido
ajuda de todos. Os médicos, por exemplo, têm
tendência para mostrar a porta aos alcoólicos o mais
depressa possível, talvez neste processo receitem
Valium criando uma dependência cruzada. Então, os
alcoólicos desesperados, voltam-se uns para os
outros, saem do seu círculo de amizades e vêem aos
Alcoólicos Anónimos. No meio de um grupo de pessoas
em que todos eles se sentem demitidos de qualquer
esperança, os Alcoólicos Anónimos produziram mais de
dois milhões de alcoólicos "recuperados". O
testemunho destas vidas transformadas não pode ser
posto de parte.
Na minha
própria experiência, com algumas excepções, uma
pessoa deve primeiro estar sóbria antes de poder
ouvir o evangelho. Eu tenho um amigo, nascido de
novo, cirurgião e alcoólico, que se recusa a ir aos
Alcoólicos Anónimos. Ele tentou ficar sóbrio indo a
estudos bíblicos e reuniões de oração,
principalmente porque não queria admitir que era um
bêbedo como todos os outros. Ele nunca podia parar
de beber. Finalmente, humilhou-se a si mesmo,
admitiu que era impotente em relação à sua
dependência e percorreu os 12 passos dos Alcoólicos
Anónimos. Hoje, está de volta aos estudos bíblicos e
às reuniões de oração e é fiel servindo a Deus.
As
curas e conversões entre os alcoólicos são
frequentes e instantâneas?
Não
muito. Mas não há dúvida de que algumas pessoas são
miraculosamente libertas do poder do álcool. Eu tive
um doente alcoólico, paraplégico, que veio ao meu
consultório e anunciou: "Doutor, eu sou salvo e
estou bem". O seu desejo de beber foi- se
instantaneamente. Este é o tipo de experiências que
desejávamos que acontecesse frequentemente, mas de
facto, são muito raras.
Na minha
experiência como médico, cheguei à conclusão de que
essas curas imediatas, ou aceleração do processo de
cura, não podem ser contabilizados cientificamente,
porque resultam da intercessão e oração dos crentes.
Muitas vezes, a oração intercessória é a única
maneira de derrubar os poderes espirituais que cegam
o alcoólico e a igreja deve levar a sério este
mandato de interceder, em oração, em benefício
daqueles que são apanhados nas teias do alcoolismo.
A
procura de cura imediata pode, em alguns casos,
impedir a recuperação de alcoólicos através de
outros meios?
Não há
qualquer dúvida. Bill Wilson, que fundou os
Alcoólicos Anónimos, teve uma cura imediata e
incitou todos os outros a consegui-lo também.
Finalmente percebeu que o seu esforço não era ajudar
alcoólicos a melhorar. De facto, a cura imediata, é
trabalho de Deus e nós não podemos prever se, e
quando isso vai acontecer.
Pela
minha experiência, às vezes dá- se o caso das
conversões "rápidas" irem bem durante algumas
semanas, até as coisas começarem a dar voltas. A
dependência volta e o desejo ardente persiste, o
alcoólico continua a ser um hóspede dentro da
família e com problemas pessoais com aqueles com que
se confronta. Neste ponto, ele pode ficar
desencorajado e algumas vezes irá simplesmente
desistir por completo.
Precisamos de nos certificar de que não vamos
induzir em erro semelhante pessoa com um
conhecimento superficial do evangelho. Deus
certamente pode resolver qualquer uma das nossas
dificuldades imediatamente, mas os nossos problemas
não vão desaparecer todos. O alcoólico pode ser
completamente liberto da sua dependência, mas ele e
os membros da sua família continuam a ter problemas
físicos residuais, emocionais e espirituais. Esta é
outra razão pela qual precisamos ser completos ao
lidar com estes três aspectos da doença.
Em
"Deus é a favor do alcoólatra", Jerry Dunn disse: "O
alcoolismo começa com as bebidas sociais e não como
um problema de personalidade". Ele começa por
argumentar que o próprio álcool, é um produto
defeituoso e que os crentes deveriam responder com a
abstinência total. Qual é a sua posição?
Ele tem
um bom ponto de vista. Penso que estaríamos melhor
sem álcool. Muitas pessoas discordam, mas aqueles
que como nós se preocupam com as desgraças que o
álcool provoca, certamente iriam gostar de encontrar
uma alternativa melhor para relaxar. Infelizmente, a
bebida é tão velha como a Bíblia e não vai
desaparecer sem mais nem menos.
Em
sua opinião qual deveria ser a atitude do cristão em
relação ao álcool?
Não vou
andar a defender a abstinência por toda a comunidade
cristã; parece claro na Palavra de Deus que os
cristãos no passado bebiam bebidas fermentadas e
muitos cristãos hoje, bebem por uma questão de
liberdade pessoal. De qualquer forma, eu
pessoalmente não bebo mais e penso que existem boas
razões pelas quais todos os cristãos deveriam
considerar seriamente a abstinência.
Primeiro, os cristãos que têm alguma evidência de
alcoolismo na sua história familiar – pai, mãe,
irmã, irmão, avô, tio – não deveriam beber de todo.
Estas pessoas precisam de levar a sério a ordem de
Paulo para fugir do pecado. Um homem cristão, que
descendia de quatro gerações de alcoólicos,
perguntou-me recentemente, se isso significava que
ele tinha de se abster até mesmo de uma cerveja
ocasional com os amigos. Tive de lhe dizer: "sim, é
exactamente isso que significa." Na presença de uma
história familiar de alcoolismo, qualquer bebida é
uma imprudência grave.
Também
sou de opinião de que pastores, anciãos, diáconos e
outros líderes da igreja deviam considerar o voto do
nazireu como ideal e absterem-se de beber, todos
eles. Um líder da Igreja que bebe e que talvez,
ocasionalmente, se embriague levemente, estará a
permitir que o poder do Espírito que está sobre si,
saia. A embriaguez, mesmo que seja acidental,
extingue o Espírito e é imprudente para um líder da
Igreja correr esse risco. Este comportamento coloca
muitas coisas em questão.
Finalmente, todos os cristãos precisam de considerar
seriamente o efeito que o álcool tem na parte do
nosso cérebro que controla as inibições. Como
seguidores de Jesus estamos envolvidos em combate
espiritual e enfrentamos tentações constantemente.
Mesmo quando estamos no nosso melhor, quando as
nossas inibições estão sob o controlo total, é
muitas vezes difícil resistir aos estratagemas
subtis de Satanás. Reduzirmos propositadamente as
nossas inibições, num tempo de combate, é realmente
bastante imprudente.
PARÁBOLA
DO FILHO PRÓDIGO