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Sete Passos Para a Queda
Jerry G. Dunn

1º- Beber socialmente.

Quase sem nenhuma excepção, as pessoas começam a beber porque alguém lhes oferece uma bebida.

Os estudantes podem beber pela primeira vez por causa do receio de os colegas rirem deles, para provar que já são adultos, ou simplesmente por curiosidade. Muitos tomam bebida alcoólica pela primeira vez nas festas de fim de ano.

Na universidade, onde as ocasiões sociais são mais importantes e mais frequentes, a bebida começa a adquirir um papel mais proeminente. “É preciso beber um pouco”, disse um universitário calouro. “Todo mundo bebe”.

A “hora da hospitalidade” e o cocktail tornam-se parte aceite da vida social. Assim, o jovem contrário à bebida depara-se sob pressões fortes, embora subtis, para se unir à multidão. Em algumas festas, a pressão para que todos bebam é tão grande que o hóspede tem de ter um copo na mão, ainda que contenha apenas refrigerante ou qualquer outra coisa, para deixar os outros à vontade.

Ninguém, quando começa a beber, deseja tornar-se escravo do álcool. Não deseja beber até cambalear ou expor-se ao ridículo. Não deseja fazer da garrafa seu primeiro amor – com a exclusão da família, dos amigos e do emprego. A pessoa raciocina: “Não é isso o que vai acontecer comigo.” Considera-se esperta demais para se submeter ao controle do álcool. Tem bastante vontade própria e bastante autocontrole. É bem provável que nem mesmo perceba os sinais de perigo, até ser tarde demais.

Embora o beber socialmente seja o primeiro passo para o alcoolismo, um perigo ainda mais insidioso é a ideia corrente de que, para demonstrar hospitalidade, deve servir-se uma bebida alcoólica. Essa armadilha já apanhou muitos que, felizmente, conseguiram voltar à sobriedade.

2º - Dependência da bebida.

Os motivos que o alcoólico apresenta para beber mudam subtilmente, mas de modo perceptível. Ele já não bebe somente quando recebe visitas ou quando vai visitar outros. Torna-se um bebedor habitual ou um dependente da bebida. O motivo pelo qual começou a beber determinará o tipo de bebedor em que se tornará.

O bebedor habitual é o que está apenas começando a sentir o puxão poderoso e insistente do vício. Ele prepara uma bebida quando chega a casa, de volta do trabalho, ou depois do jantar, enquanto vê televisão. Talvez nem perceba que o hábito da bebida pode levá-lo para o alcoolismo.

Aquele que depende da bebida bebe quando as dificuldades começam a acumular-se e quando os problemas ficam grandes demais. O patrão  repreende-o no trabalho; perde um grande contrato; a esposa quer comprar móveis novos, ou um cobrador irrita-se. Assim, ele bebe. A bebida ajuda-o a esquecer. Os desapontamentos e frustrações não parecem tão grandes sob o brilho temporário produzido pelo álcool.

Sei muito a respeito dessa maneira de beber. Eu costumava fazer da bebida a minha parceira, de modo que meu conhecimento é total. Se alguma coisa me perturbasse ou  irritasse, ia logo para o bar mais próximo. Nunca me ocorreu que a garrafa jamais pudesse resolver um único problema. Nem encarava o facto de me sentir pior e menos capaz para enfrentar a vida, depois de passado o efeito da bebida. Embora nessa época meu impulso principal para beber viesse das pressões que enfrentava, estava a tornar-me viciado no álcool. E, à semelhança do bebedor habitual, não o percebia.

Na verdade, a diferença entre o bebedor habitual e o que depende da bebida é bem pequena. Ambos se encontram nos estágios iniciais do vício.

3º - Fase pré-alcoólico.

Aqui, novamente, o passo é bastante definido. Bem entrincheirado agora como bebedor regular, o indivíduo começa a beber com mais pressa. Ele começa a engolir tragos de uma vez só; a beber escondido e a surripiar bebidas. Nas festas, é o indivíduo com grande coração que deseja ajudar a servir.

Com um pretexto ou outro, o indivíduo na fase pré-alcoólico conseguirá dar um jeito de ir para a cozinha preparar as bebidas. O seu copo está sempre cheio, e talvez prepare uma bebida extra e beba sempre que mistura uma bebida para outra pessoa. Embora nesse ponto ele raramente aparente os efeitos de haver bebido demais, agora começa a revelar as evidências da intoxicação.

Mesmo na fase pré-alcoólico o indivíduo torna-se um mentiroso consumado. Ao procurar impedir que a família ou o patrão fiquem sabendo que ele está a beber cada vez mais, o engano e a mentira passam a ser seu modo de vida. Se você lida com alcoólicos, isso é algo de que se deve lembrar.

Não importa quem ele seja – rico ou pobre, inteligente ou não, importante ou não – se ele está a afundar-se no álcool, torna-se um mentiroso compulsivo. Consegue olhá-lo directamente nos olhos e falar com a tonalidade de quem faz um juramento solene, sem proferir uma única verdade.

4º - Problema com a bebida.

Essa é a fase em que o bebedor pré-alcoólico começa a perder o controle dos seus hábitos de beber. Até essa altura ele conseguia controlar o tempo em que começava a beber até à hora de parar. Agora, começa a beber e não consegue parar. As chamas do vício começam a aumentar, e já não consegue matar a sua sede de bebidas alcoólicas.

Começa então a passar os fins-de-semana completamente embriagado.

É nessa altura que o bebedor problemático passa por grandes tormentos. Vai a algum lugar a fim de realizar um trabalho, mas começa a beber e não consegue parar. Apenas muito vagamente se lembra de algo que aconteceu.

Jamais me esquecerei do tormento por que passei quando, certa vez, me encontrava nessa fase.

Os dias anteriores à bebedeira pareciam um vazio completo. Não tinha ideia alguma do que havia acontecido, a não ser que tinha passado cheques sem cobertura por toda a cidade. Comecei a ver-me como um mentiroso, enganador, ladrão e bêbado.

Eu não teria admitido nenhuma dessas coisas a mais ninguém, mas, bem no fundo do coração, eu sabia que eram verdade. Foi uma experiência apavorante.

“Se eu tão somente pudesse resolver o problema imediato”, raciocinei, “poderia cuidar das coisas daqui para frente. Se tão somente conseguir dinheiro para cobrir estes cheques, não me meterei em mais apuros como este.” Contudo, a percepção enervante de estar indefeso contra a sede feroz que me estava controlando, era um tormento real.

Freneticamente, comecei a procurar respostas, mas ao mesmo tempo tinha medo de que as pessoas descobrissem a minha situação. Jamais me esquecerei da ansiedade com que fui ver um psiquiatra pouco tempo depois, e de quão grande era meu desespero em procurar ajuda. Mas o orgulho não me deixava admitir a minha necessidade. O orgulho não me deixava revelar a ninguém meu problema com o álcool.

A partir desse ponto, a descida progressiva do alcoólico torna-se vertiginosa.

5º - O quinto passo é a própria queda no alcoolismo.

Até atingir esse ponto, o bebedor problemático consegue manter uma vida aparentemente normal. Agora porém, seu vício crescente começa a influenciar os membros da sua família, os amigos e os companheiros de trabalho.

Chega ao ponto de sua vida girar em torno de uma única coisa: conseguir outro trago. Ele já não pode controlar a hora em que começa a beber, nem a hora para parar.

Embora possa desejar, desesperadamente, não beber, o seu próprio ser grita pedindo o álcool a que está viciado. Bebe porque não consegue evitá-lo, e continua a beber por longos períodos de intoxicação, porque é forçado. Seu organismo desenvolveu uma dependência do álcool que não pode ser negada. A sua existência toda torna-se uma batalha para satisfazer esse desejo insaciável e usa a astúcia quase como um instinto animal.

Como percebe o leitor, o alcoólico finalmente chega ao ponto em que sua dependência do álcool é tão completa, que fica aterrorizado com o pensamento de precisar de um trago e não conseguir encontrá-lo.

Outra característica de quem cai no alcoolismo é sua atitude para com o trabalho. O alcoólico médio é um trabalhador excepcional. Quaisquer que sejam suas responsabilidades no emprego, serão bem executadas. Por estranho que pareça, essa meticulosidade também faz parte do padrão e assinala outro ponto fraco em direcção ao alcoolismo. A explicação está no motivo por que ele executa tão bem suas atribuições. Pode ser que ele não seja ambicioso ou consciencioso quando sóbrio; agora, porém, trabalha por causa do temor. No fundo da mente ele sabe que cedo ou tarde vai ficar bêbado e não poderá voltar ao trabalho na Segunda ou na Terça-feira. Teme que, quando o inevitável acontecer, seja despedido – a menos que tenha uma excelente folha de trabalho. Assim, ele trabalha tanto quanto pode a fim de tornar-se tão valioso ao patrão, de forma a que não seja despedido.

Outro temor pode motivá-lo a trabalhar ainda mais. Ele sabe que, quando bêbado, fez coisas que jamais faria estando sóbrio. Pode ser que tenha passado cheques sem cobertura, jogado, ou não tenha pago a renda da casa. Ele pode ter chegado perto de ir para a cadeia. Ele pensa que se der o duro – ou, se for um bom vendedor e tiver um registro suficientemente alto de vendas – a companhia o ajudará. Se gostam dele, poderão adiantar-lhe dinheiro suficiente para acertar as coisas.

O alcoólico, devemos lembrar-nos, é astucioso. Sempre pensa adiante. Está sempre tentando preparar-se para o imprevisto. Ele reconhece as suas próprias fraquezas, embora não as admita, e está constantemente tentando impedir que elas o vençam.

Desde o primeiro minuto de trabalho, ele se torna o melhor lavador de pratos, cavador de buracos ou porteiro, que a firma já possuiu. Trabalha duro sem reclamar e realiza o trabalho tão bem que o chefe não pode deixar de ficar impressionado.

Depois de alguns dias o homem vai ao patrão: “Não tenho conseguido pagar a renda”, mente, “o meu senhorio deu-me o prazo até hoje à noite para conseguir o dinheiro. Será que não podia dar-me um adiantamento?”

O chefe, em geral, contente em ter um empregado tão trabalhador, dá-lhe o adiantamento. Com o dinheiro no bolso, o empregado quase atropela alguém na corrida em direcção ao bar mais próximo, onde se embebeda. E o patrão jamais volta a vê-lo.

Embora a pessoa nesta fase trabalhe bem, seu motivo é totalmente egoísta. Todos os seus pensamentos e desejos são para a bebida. Nessa fase da descida vemos a mudança completa da personalidade do indivíduo.

Quando a pessoa se encontra na fase pré-alcoólico, começa a mentir. Quando se torna bebedor problemático, começa a desenvolver a dependência dos outros e é assaltado pelo tormento do medo e da ansiedade. Está apenas a um curto passo do alcoolismo. Ao cair no vício do álcool, completa-se a mudança da personalidade.

O alcoólico não apenas mente e engana os que o cercam, mas torna-se também autocentralizado e anti-social. Não quer estar na companhia de outras pessoas – especialmente de estranhos. Prefere não comer, a sentar-se à mesa com outros, e muitas vezes guardará no quarto bolachas, queijo e comida enlatada, para comer sozinho.

Ele não quer tomar decisões, e torna-se dependente da esposa, da família e até da comunidade toda.    

O estranho, porém, é seu orgulho; ele é orgulhoso ao ponto de se apegar a toda ilusão capaz de impedir que os outros descubram a realidade do seu carácter.

Por exemplo, certo entalhador de madeira, competente, fez algumas lindas gravuras de madeira, mas recusou-se a mostrá-las ou vendê-las. Um amigo disse: “Ele colocou-se a si mesmo nessas esculturas de madeira, mas o orgulho o impede de mostrá-las.”

O alcoólico é, com frequência, orgulhoso demais para permitir que a esposa e os filhos recebam ajuda de qualquer espécie. Contudo, não hesita em depender da renda da mulher.

Em situações como esta, o alcoólico típico quer que a esposa continue a trabalhar, porque, no fundo, teme que um dia ele possa cair em dificuldades financeiras por causa da bebida e precise do rendimento do emprego da mulher.

Outro jovem, conhecido meu, dependia ainda muito mais da esposa. O alcoolismo severo tirou-lhe a vida algum tempo atrás, mas enquanto viveu contentou-se em deixar que a esposa (mãe de dois filhos pequenos) trabalhasse para sustentar a família e a ele.

Nessa fase da descida para o alcoolismo, o indivíduo quase sempre perde o emprego. De uma coisa, contudo, pode estar certo: a menos que alguém o agarre, lhe apresente as reivindicações de Cristo para sua vida, e o ajude inteligentemente a vencer o seu problema, não será o último emprego que deverá ao álcool.

O homem, numa situação familiar média, é o que, com toda probabilidade, desenvolverá a dependência da sua família. O homem sem um lar pode, muitas vezes, tornar-se dependente da sociedade. Certo ébrio costumava passar 312 dias do ano na cadeia. O problema era sempre o mesmo: bebedice. A cadeia era um modo de vida para ele. Significava calor, alimento e um lugar para dormir à noite – enfim, certa medida de segurança.

Para outros alcoólicos, o ciclo é mais complexo, mas o motivo é o mesmo. Vão da cadeia para o hospital, depois para um centro, deste para a “vida normal” e, novamente, de volta para a cadeia.

A questão da dependência é uma das mais difíceis e sérias que o conselheiro ou a família encara ao trabalhar com o alcoólico. É preciso quebrar a dependência que ele tem dos outros antes que o viciado possa receber ajuda. 

Descida subtil ao alcoolismo crónico.

Ao passo que o mergulho do bebedor problemático no alcoolismo seja súbito e bem definido, a queda no alcoolismo crónico é gradual. Depois de perder um emprego por causa da bebida, o indivíduo consegue outro. Por algum tempo, tudo vai bem. Então, a bebida tira-o do trabalho novamente.

Deterioração orgânica.

O alcoólico chegou ao ponto em que já não se importa com a própria aparência. Anda sujo e com a barba por fazer. Seus olhos são vermelhos e seu rosto, perpetuamente inchado e rosado. Já não se esforça para encobrir os encontros com o vício. A bebedeira constante tem-lhe custado um emprego após outro, até ao ponto de já não tentar conservar o emprego.

Trabalhar, para ele, é o meio de conseguir algum dinheiro para gastar com o álcool e pagar a renda de um quarto, e, finalmente, apenas para a bebida. Visto que sua mente está confusa, não consegue emprego que requeira perícia.

A saúde do bêbado está no fim. O organismo que Deus lhe deu começa a deteriorar-se sob a negligência e os abusos constantes. Ele caminha pela rua com a aparência de quem tem o dobro da sua idade. Andar, para ele, é tortura, e as mãos estão sempre tremendo. Mal sobrevive com as esmolas que recebe. É comum a má nutrição.

Também são comuns a cirrose do fígado e as desordens nervosas e gástricas. Em países, como Portugal, onde a incidência do alcoolismo é mais alta, as enfermidades do fígado são também mais frequentes.

Posso falar pessoalmente sobre desordens gástricas causadas pelo álcool, pois queimei o estômago com bebidas alcoólicas e tenho úlceras estomacais e vários outros problemas digestivos.

Considerações gerais

O alcoólico pode contrair problemas circulatórios e apresentar feridas por todo o corpo. Nessa altura, ele está bem familiarizado com os hospitais. Indubitavelmente, já teve a experiência de entrar em colapso e ser levado a um pronto-socorro, onde o trataram como melhor puderam.

Os médicos acham que tratar de tais pessoas é uma tarefa ingrata. Abusaram dos corpos de modo tão terrível que agora estes não respondem bem ao tratamento. E, ao receberem alta, invariavelmente voltam à garrafa e continuam o processo de autodestruição.

Ainda mais perturbador que a ruína física do alcoólico, é o modo como sua mente se deteriora sob o abuso contínuo do álcool. Todos os que lidam com este problema vêem o efeito do álcool até mesmo em ex-bancários, advogados, agentes e executivos.

A mente e a personalidade de um ex-médico, que finalmente morreu numa instituição estadual, estavam tão afectadas por seus encontros contínuos com a bebida, que ele não conseguia viver fora da instituição. Esse homem, que já fora útil à sociedade e altamente respeitado e amado em sua comunidade, não podia nem mesmo ser usado como enfermeiro na instituição em que passou seus últimos anos de vida. Porquê? Por causa da deterioração mental.

A possibilidade de descer ao fundo assusta qualquer indivíduo do terceiro estágio em diante, e também muitos dos bebedores sociais e habituais, que ainda não beberam o tempo suficiente para se viciarem. Felizmente, o indivíduo não tem de chegar ao ponto da deterioração orgânica para se libertar da escravidão da bebida. Em qualquer ponto da descida ele pode enfrentar-se a si mesmo e à sua situação, e lançar fora as algemas do vício.

Quanto mais cedo o indivíduo chegar a essa compreensão e procurar ajuda, tanto menos domínio o álcool terá sobre ele, e tanto mais fácil será libertar-se. Não é impossível a pessoa libertar-se no estágio final do alcoolismo, pois nada é impossível para Deus. Mas os seus problemas serão muito mais graves do que, se houvesse procurado ajuda mais cedo.

Por exemplo, certo professor de música de um grande ginásio, quando nos veio procurar, havia sido alcoólico por um ano e meio. Trabalhar com ele foi muito diferente do que com os alcoólicos que já vão para dez ou quinze anos, pois ele reagia ao tratamento e às sugestões com muito maior rapidez.

Infelizmente, nada podemos fazer pelo alcoólico até que ele deseje receber ajuda. Podemos reconhecer todos os sintomas e saber do que o indivíduo precisa, mas não conseguimos chegar até ele a não ser que ele decida receber auxílio. Já cheguei ao ponto de recusar conversar com a pessoa que não deseja minha ajuda.

Um pastor veio ver-me certa ocasião e instou comigo a que visitasse certa família na qual o marido era alcoólico. Tentei explicar que minha visita seria infrutífera, a não ser que o homem desejasse receber ajuda. Mas, quando a esposa me implorou que o fosse ver, concordei.

Gastei metade da manhã tentando conhecê-lo e desenvolver certo entendimento, porque queria que ele confiasse em mim. Quando, finalmente, ele começou a abrir-se e nos encontrava-mos numa conversa bastante amigável acerca do seu problema e do facto de haver uma solução, a esposa entrou na sala, irritou-se com algo que o marido disse e começou a destratá-lo em minha presença. Isso acabou com minhas esperanças de alcançá-lo. Foi uma situação miserável e embaraçosa, e logo me despedi deles.

Nesse caso o homem não estava pronto para a ajuda e nem a desejava, de modo que não me procurou. Assim, quando fui procurá-lo em casa, não tínhamos a privacidade devida. Além do mais, não tive a oportunidade de conversar com a esposa; eu não sabia o que esperar dela. Consequentemente, quando ela repreendeu o marido nada pude fazer. É claro, percebi que ela provavelmente havia atingido o ponto de não mais poder se conter. Toda a sua humilhação, seu pesar passado e seu temor presente, finalmente explodiram. Entretanto, tenho certeza de que minha visita foi um empecilho, e não a ajuda que havíamos esperado.

O alcoólico deve atingir um ponto de crise na vida antes que esteja aberto à direcção e ajuda. Na linguagem popular, ele tem de chegar ao fundo do poço. O fundo do poço pode ser diferente para cada pessoa.

Certo advogado, bastante conhecido, estava na fase pré-alcoólica quando atingiu o fundo. Ele quando sóbrio era uma pessoa que se vestia bem, sério, de boas maneiras, enfim, o oposto de quando estava ébrio. Sua esposa tentou dizer-lhe quão ridículo ele se tornava ao beber demais, mas ele não acreditou nela. Assim, numa festa, ela pediu que um amigo levasse uma câmara de vídeo e o filmasse. Quando ele voltou à sobriedade, mostraram-lhe o filme. Ele nunca mais tomou qualquer gole.

Vários estudos demonstram que somente cerca de 3 a 12 por cento dos viciados no álcool vão viver na rua. A grande maioria vive em suas comunidades, protegidos pela família e, ocasionalmente, pelos companheiros de trabalho.

Com medo de encarar a vida, ocultam-se em suas prisões de vergonha. Não têm para onde ir. A maioria nem mesmo admite ter problemas. É preciso que sejam sacudidos por algo que os faça atingir o fundo e comecem a procurar respostas.

Às vezes o homem atinge o fundo ao perder o emprego pela primeira vez e ver a esposa, os filhos e a si mesmo sem um meio de sustento. Pode ser que ele chegue ao fundo quando os filhos reconhecem o problema e falam a respeito.

Certa mulher veio a meu escritório, em desespero, depois de uma experiência assim. Ela chegara a casa com uma caixa de cerveja. Seu filho de doze anos de idade, caindo de joelhos, agarrou-lhe as pernas e clamou: Oh, mãe, mãe, por favor, não beba isso! Você  não sabe o quanto a bebida faz mal para a senhora!” As palavras do filho levaram-na tão fundo que começou a procurar ajuda.

Outra mulher veio ver-me por causa do marido.

“Já disse àquele homem centenas de vezes que vou deixá-lo, se ele não parar de beber”.

“Já o deixou?” – perguntei-lhe.

“Ainda não”.

“Bem, deixe-o desta vez”.

Quando o marido voltou para casa e descobriu que ela havia ido embora, ficou apavorado e percebeu que tinha de procurar ajuda. Até àquele instante ele pensava que a mulher estivera brincando. Ele jamais havia admitido ter um problema com a bebida, mas agora sabia que tudo quanto tinha na vida, e que valia a pena conservar, desapareceria, a menos que encarasse o problema e buscasse respostas. Consequentemente, ele começou a procurar um modo de sair da sua dificuldade.

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